sexta-feira, 11 de março de 2011

A Deusa Kali


Esta é a décima primeira matéria sobre deusas e deuses da Índia arquimilenar, em seus primórdios dourados, época em que celestiais, intramundos, criaturas (jivatmas), seres humanos e animais conviviam e interagiam num habitat da mais pura e radiante natureza.
Por Claudio Duarte
    Tudo o que ocorre no planeta é previsto em princípios gerais no Karma Yóga, com sua Lei do Karma, de ação e reação ou causa e efeito, e sua famosa pirâmide das três qualidades, trigunas; Tamas, a pesada, lenta, densa, carregada de ignorância; Rajas, a agitada, em movimento, altercada, carregada de pretensões e racionalismo; Satvas, a leve, suave, harmoniosa e profunda, carregada de espiritualidade pura.
Na era atual, possíveis 50% da sociedade são tamásica, 45% rajásica e 5% satívica, o que gera uma realidade muito sensível e delicada na e para a sociedade.
Porém, é totalmente viável uma mudança para melhor desta realidade mutante e mutável, desta "Roda do mundo" ou "Oceano de Samsara". Contudo, para isso é necessário que uma imensa parte da população atinja um verdadeiro estado de discernimento.

Para tanto, o conhecimento sutil mais elaborado e refinado deve ser acessível a todos, pois, a priori, essa é uma das principais formas de melhorar o ser humano e reequilibrar o próprio planeta, o que não está acontecendo nesta era.
Trata-se de uma missão coletiva premente, pois o futuro que se aproxima – em função dos graves crimes ambientais e ecológicos aqui perpetrados –, não traz uma visão animadora. Pelo contrário, de certa forma mostra-se até sombria.
Para mostrar algumas possibilidades reais de transformações benéficas e positivas, vou aqui tratar de uma das deusas mais queridas, não só no Oriente, mas em muitas outras partes do mundo, a deusa Kali, aquela que cuida do tempo e da existência de tudo e de todos.
O nome Kali é derivado do sânscrito kala, ou tempo. Assim, Kali tem o poder sobre o tempo em todos os sentidos, daí ser a Deusa do Tempo, em todos os aspectos e possibilidades.
Porém, quando o tempo é transcendido, tornando-se a noite eterna de paz e de felicidade sem limites, este também é um atributo dela, chamado Maha Ratri, e sob este ângulo ela é considerada a “realidade última”, representada pelo Kala Nala Yantra, que simboliza o “fogo ardente do juízo final”, no qual o espírito (atman) se incorpora e, depois, dilui-se na mais profunda fusão – Yóga – com a divina vibração, eterna e celestial.
Esta e muitas outras definições sobre a venerada deusa do tempo podem ser encontradas no Rig Veda, em seus hinos Ratri Sukta, Devi Sukta e Sri Sukta, e em outros clássicos do período védico que citarei, muito embora ela seja uma deusa dravidiana e pré-védica.
As citações são todas em homenagem à tão amada Kali Mãe, e como tributo às venerandas "antigas" que tudo me ensinaram, e a todas as mães e mulheres do mundo, que merecem nosso imenso amor, carinho e respeito.
Também é importante frisar o Dasha Maha Vidyas, um texto sobre os 10 aspectos da energia primordial, ou shakti. Cada um dos 10 é representado por uma deusa, sendo a primeira Kali, a deusa do tempo, com todo o seu poder gerador, mantenedor e transformador.
Por outro lado, de acordo com o Markandeya Purana, a deusa Kali, a azulada ou negra, é a sexta manifestação da deusa Durga, mas imediatamente se torna uma devi independente e gera todo um processo cósmico existencial único, no qual uma de suas missões principais é a dissolução do tempo, ou pralaya.
Isso sem contar sua função histórica e a participação decisiva e vitoriosa em terríveis guerras contra gigantescos seres malignos extra-estelares, portadores de imensos poderes supranormais, ou siddhis, que, ao final de Treta Yuga ou Idade da Prata, se haviam instalado neste planetóide e, daqui, comandavam batalhas nocivas contra outros sistemas ou planetas.
Nesse caso, em diversas ilustrações, imagens e estatuarias, Kali apresenta um aspecto feroz de guerreira, algumas vezes inclusive em pleno campo de batalha, cingida de sangue e portando a cabeça dos inimigos da paz e do bem.
Todavia, essa imagem representa também a luta interior do ser humano contra o ego, a vaidade, a ganância e a bestialidade, que atualmente se podem ver nas pessoas deste minúsculo enclave planetário.
A quantidade de pequenas e médias cidades no interior da Índia é incalculável, e nelas a devoção (bhakti) à deusa Kali é indescritível; seu culto é totalmente matriarcal, em todos os sentidos. As principais famílias são chamadas taravads, ou famílias das matriarcas e das anciãs, que detêm o conhecimento espiritual e das tradições, de geração a geração, por milênios. Nessas regiões, as matriarcas não só administram suas grandes famílias como as próprias aldeias, através do Conselho Tântrico, que ordena até os ritos religiosos da comunidade.
Por outro lado, aos homens destas famílias cabe manter as mesmas seguindo as orientações das matriarcas e das anciãs, sendo que os mais velhos da região ou de uma família são chamados karanavar.
O dia-a-dia de tais regiões é normal, de trabalho e estudo; mas ao cair da noite sempre ocorre a adoração à deusa Kali nos templos. Muitas vezes, a mesma é chamada de Kula Bhadra Kali, a Kali benevolente e protetora das famílias ou dos clãs, a mãe divina.
O ano todo, em tais templos, são matriarcas ou anciãs que oficiam as cerimônias. Ali e nos lares, as jovens praticantes do Hatha Yóga tradicional, chamadas hatha yoguínis, desenvolvem o controle do Ahurya Varada Mudra, ou mudra universal feminino, legado ao Hatha Yóga pela deusa.
Além dos milhões de seguidores normais, pessoas que levam uma vida de trabalho, estudo e família, há também outros tipos de devotos, com características muito especiais.
Entre estes podemos encontrar as vallichappads ou "portadoras da luz espiritual", que, através de práticas espirituais, todas dedicadas a Kali, se transformaram em santuários de serenidade, austeridade e espiritualidade. Ainda assim, elas mantêm forte ligação positiva com toda a sociedade e vivem no seio da mesma. São consideradas as bhaktis de Kali, pelo profundo e real amor que irradiam. Há que se esclarecer que também existem homens vallichappads.
Paralelamente, existem os odiyyas ou "clarividentes", seguidores de Kali que preferem viver reclusos nas florestas, imersos em suas práticas, na busca da iluminação concedida pela graça misericordiosa de Kali, a mãe divina.
São detentores de tremendos poderes paranormais, chamados siddhis, e nas poucas vezes em que aceitam ir às cidades é para atuarem junto com as matriarcas e anciãs na cura de crianças ou adultos que estejam enfermos, usando seus conhecimentos ióguicos sobre as energias vibracionais e suas funções quânticas. Há que se esclarecer que também existem mulheres odiyyas.
E há também as respeitadas kurukkals, mulheres que têm o conhecimento especial das cerimônias da deusa, que só elas podem realizar dentro dos templos, quando as procissões vão para as florestas à noite e voltam pelas manhãs. Elas ficam fechadas nos templos e agem sobre os substratos mais sutis ou energias de Kali (Shakti Ka), que são absorvidas em grandes escalas naqueles períodos, para que tais energias possam se redistribuir e beneficiar o maior número possível de criaturas e seres humanos.
Nessas ocasiões, elas usam dois longos mantras que são:
a) O Maha Preeta Nishkarshana Mantram, que serve para se obter as mais puras e benéficas energias cósmicas;
b) O Maha Preeta Samkamana Mantram, que serve para se transferir e redistribuir tão sagradas energias em benefício das criaturas, dos seres humanos e de todos os outros seres do planeta.
Há que se esclarecer, que não existem homens kurukkals.
A impressionante e maravilhosa celebração à deusa Kali Mãe acontece entre o final de outubro e o início de novembro. As cerimônias têm início nas residências das devotas e devotos e, naquela ocasião, recebem a marca da deusa em cor vermelha na entrada; são chamadas de Kali Bari, ou os “Lares de Kali”.
Há um período de jejum (ekadash) que varia de acordo com a região, e as comemorações começam sempre a partir da meia-noite, indo até ao meio-dia.
A noite principal é chamada de Karttika Amavasya, ou a noite mais escura do ano, quando imagens da deusa em cerâmica, barro ou argila são veneradas. No dia seguinte, são imersas nos rios ou lagos locais pelas famílias, em meio a grandes procissões e cânticos de mantras e hinos (Karpuradi Stotrams) devotados a Kali.
Tal evento tem inúmeras finalidades e objetivos, sendo um deles que a deusa destrua o carma negativo dos devotos (Samskaras) para que eles possam transcender os limites mundanos e obter a luz da consciência pura.
Apenas em um único dia do mês de abril as matriarcas escolhem um Karanavar para oficiar, em função de um agrupamento de estrelas chamadas Bharani.
Nessa noite, o aspecto adorado é Raktha Kali ou Kattu Kali, a Kali das Florestas. Considera-se que essa manifestação da deusa surge apenas nessa noite em cada ano, para destruir as energias maléficas que afligem os seres humanos.
Os oficiantes saem dos templos acompanhados por imensos séquitos em direção às florestas, portando lamparinas, tocando instrumentos, dançando e cantando – o Shyama Sangita – todos vestidos de vermelho, raros de branco. Durante essa “noite de Kali” especial, permanecem em transe até o romper da aurora (muhoortham). Os peregrinos ou yatris que se engajam nas atividades são chamados de "queridas filhas e filhos de Kali" ou villambadis, e eles acreditam que a própria deusa se manifesta naquela ocasião para transmutar e eliminar as vibrações e energias maléficas.
Existe inclusive um texto específico sobre a construção dos templos da Devi, chamado Mana Sara Shilpa Shastra, que detalha como e onde devem ser construídos para propiciar e facilitar as adorações e as cerimônias à deusa. A "noite de Kali" é chamada também de "noite do caos", ou a noite simbólica do fim de um ciclo de espaço-tempo (prapacham).
Ao surgir do dia, todos voltam para os templos onde grandiosas festas têm início, para comemorar o surgimento de uma nova vida, mais radiante e mais feliz. Como os seguidores da Devi são todos vegetarianos, nas festas os alimentos seguem sobriamente esse princípio.
Ao redor dos templos e das casas, são desenhados yantras – figuras geométricas especiais – que visam manter e fortalecer as vibrações das energias benfazejas propiciadas pela deusa.
Entretanto, é importante esclarecer que, com o advento da bestialização globalizante que corrói e destrói países e seres humanos, aos poucos tais manifestações vão se perdendo.
Como Kali Desaparece
Após cumprida sua missão cósmica, a devi volta ao seu princípio sem princípio, onde permanece imanifesta até que, após um longo e imemorial período, chamado Kalpa Yuga, sua presença arquetípica novamente seja necessária para desfazer o caos e restaurar a ordem cósmica, ou dharma.

Alguns dos Atributos da Deusa
Nos inúmeros templos dedicados a Kali, nos santuários ou locais especiais em florestas, nos campos e bosques, nas montanhas, ela é mostrada conforme descrita em textos clássicos, como uma deusa azulada ou negra, com quatro braços, sempre em uma postura desafiante, segura e radiante.
Em geral, ela aparece nua, com um corpo lindíssimo, seios fartos, símbolo da criação, da prosperidade e da mãe que alimenta e protege; quadris largos, símbolo da fertilidade, e pernas fortes e bem torneadas, símbolo da força feminina.
Seus cabelos são negros, imensos e soltos até abaixo dos quadris, símbolo da liberdade e da autonomia feminina, muktakeshi.
Sua face é avermelhada e, na maioria das ilustrações, sua língua está fora da boca, símbolo do desprezo pela vulgaridade e pelo comportamento mundano, bestial ou tamásico.
Seus dentes brancos simbolizam a pureza e a paz espiritual, ou sattva.
Ela tem três olhos, símbolo da mais profunda perfeição espiritual feminina. No pescoço, carrega um longo colar contendo 50 crânios humanos, representando as 50 letras do alfabeto sânscrito, chamadas shabda, ou o som em seu estado vibracional manifesto e do qual procede toda a criação, e símbolo do conhecimento e da sabedoria. Pode igualmente significar a destruição ambiental que o ser humano está causando no planeta.
Na mão esquerda superior, porta uma cimitarra, símbolo da justiça divina. Na mão esquerda inferior, porta a cabeça do maligno Rakta Beej, símbolo da vitória do bem sobre o mal. Na mão direita superior, mostra o Abhaya Mudra, símbolo da coragem e da segurança interior. Na mão direita inferior, mostra o Varada Mudra, símbolo da bondade, da benevolência e da concessão. Contudo, as muitas mãos simbolizam também a capacidade de realização de muitas mulheres juntas e unidas, se compreenderem tal força.

Embora nua, na cintura apresenta um avental de braços e mãos humanas, símbolo da força e da capacidade de criar e produzir. Sob este aspecto simbológico da nudez, a deusa Kali é chamada Digambara, “vestida do céu ou do espaço sideral”. Em outras palavras, significa que, quando a visão mundana é superada, obtém-se a visão divina ou da realidade sem limites e sem condicionamentos, sem medos ou inseguranças inúteis. Tudo se torna pleno, radiante e bem-aventurado. E esta é a meta e o objetivo final de todas as devotas e devotos de Digambara. Assim, Kali é a divina sabedoria que põe fim a toda ilusão, maya.
Sob seus pés pode ou não apresentar-se um ser vencido na guerra, símbolo da capacidade feminina de vencer o ego (ahamkara), a ambição, a ganância e a maldade, obtendo o equilíbrio interior e a paz espiritual, e assim resgatar a própria divindade feminina.
Kali pode também aparecer com dez cabeças ou dez braços, ou com o chamado cabelo flamejante (jvala kesha) em outras manifestações ou simbologias.

Outros nomes e epítetos de Kali
Maha Kali, a grade deusa do cosmos ou grande manifestadora do tempo.
Kumari, a deusa virgem.
Matrika Kali, a grande mãe divina.
Kali Ma, a mãe querida.
Kula Bhadra Kali, a benevolente, a auspiciosa.
Martanda Kali, a que ilumina, dá vida e luz a tudo e a todos, a Matrix.
Chinna Masta, a sabedoria eterna.
Sheetla, a deusa da varíola, que protege contra todas as doenças infantis.
Ugra Chandi, a terrível, que protege os devotos.
Ghora Kali, a selvagem, feroz e aterradora.
Sham Sham Kali, a que protege locais de cremação.
Chamunda, a que decapitou os seres malignos Chanda e Munda.

Alguns mantras de Kali
Kalii Jaga Dambae Namastae – “Ó Mãe Kali que sustenta o mundo, Namaste”.
Kali, Kali, Mahakali, Bhadra Kali, Namostutae – “Ó Kali, ó grande Mãe kali, ó benevolente protetora, eu saúdo teu amoroso nome”.
Bhadra Kali Namos Tu Te – “Ó auspiciosa e protetora, nos somos seus devotos”.
Kulam cha kula Dharam cha – “Toda esta família e o dharma da mesma”.
Mam cha palaya palaya – “Por clemência, proteja-nos, proteja-nos sempre”.
Bhadra Kali namas tu bhiyam – “Ó auspiciosa Kali, nossas respeitosas reverências”.
Bhadrae kama roopini – “Ó belíssima, de formas admiráveis”.
Rudra Neetragni sam bhoote – “Deusa que brota das chamas dos olhos de Rudra”.
Bhadra mam tu prayas cha mae – “Ó benevolente, conceda suas graças sobre nós”.

Textos clássicos sobre Kali
– No Rig Veda, em seu hino Grihya Sutra, encontramos descrições e cânticos de louvor a Bhadra Kali.
– No Aitareya Brahmana há menções à nudez da deusa Vac, relacionadas a Kali.
– No Mundaka Upanishad há descrições de Kali e Karali, duas das sete mães divinas ou Sapta Matrikas.
– O Maha Kala Samhita descreve os nove antigos nomes de Kali, que são: Dakshina, Smashana, Bhadra, Guhya, Kala, Kama Kala, Dhana, Siddhi e Chandika.
– O Kali Ka Purana trata de certos ritos e rituais considerados secretos (bhuta damara) com oito diferentes métodos, só para as ioguinis praticantes do Hatha Yóga.
– O Linga Purana descreve a manifestação de Kali por meio de Durga, mas totalmente distinta e independente dela.
– O Markandeya Purana descreve como ela surgiu, mas de duas formas diferentes e como parte das lutas de Kali contra seres das trevas, ajudada pela deusa Chandi.
– O Skanda Purana relata suas vitórias em guerras contra seres estelares de imensos poderes malignos, como Rakta Vija que, quando qualquer gota de sangue dele caía no solo, imediatamente surgiam dela mil replicantes idênticos a ele.
– O Kala Ratri, contendo o Kala Ratri Mantra.
– O Bhagavata Purana relata Kali Ma como patrona de diversas ordens e sempre refulgente, jovem e virtuosa, e ressurgindo quando preciso a cada grande ciclo (Maha Kalpa) de novos cosmos com seus múltiplos universos.
– O Agni Purana e o Garuda Purana descrevem as invocações a Kali para ajudar a obter sucesso e vitórias nas guerras contra os desafetos.
– O Devi Mahatmya, famoso por descrever amplamente os périplos vitoriosos da deusa aqui neste planeta, com detalhes e descrições pormenorizadas incríveis, fornecendo inclusive datas, durações, antigos nomes de locais, cronologias e genealogias.
– O Ramayana e o Maha Bharata, que contêm diversos episódios sobre Kali.
– O Yoguíni Tantra, o Kamakhya Tantra e o Niruttara Tantra, que proclamam Kali como a origem absoluta de tudo, ou Maha Vidya ou Maha Devi.
 

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